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> Reportagem
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Vinte e três milhões de brasileiros passam fome. E todos os dias jogamos fora no país comida suficiente para nutrir 19 milhões deles. Como fazer todo esse alimento chegar aos estômagos de toda essa gente?
Há 23 milhões de miseráveis no Brasil – pessoas com renda insuficiente para prover 75% das suas necessidades calóricas. Nesse mesmo país, 39 000 toneladas de comida em condições de ser aproveitada vão para o lixo todo santo dia em mercados, feiras, fábricas, restaurantes, quitandas, açougues, fazendas. O número leva em conta dados de vários setores – agricultura, indústria, varejo e serviços. São 39 000 toneladas de iogurtes perto do vencimento, tomates manchados, pães amanhecidos, carne esquecida no congelador e milhares de itens que, por algum motivo estético, acabam nas latas de lixo – e, nesse cálculo, a Super levou em conta apenas aquilo que poderia ser aproveitado facilmente, sem grandes mudanças no processo de produção ou de distribuição. É suficiente para dar café, almoço e jantar diariamente a 19 milhões de pessoas. Será que não há uma maneira de fazer com que toda essa comida vá parar nos pratos vazios do Brasil? Há, sim. Mas, para tanto, duas coisas são necessárias. Primeiro: que as indústrias, os mercados e os restaurantes estejam dispostos a doar seu excedente aproveitável e os produtos prestes a estragarem (o desperdício doméstico fica de fora porque seria complicado e caro demais coletar doações de residências). Segundo: que haja instituições, do governo ou não, que busquem essas doações e façam com que a comida chegue a quem precisa antes de estragar. Pronto, está sanada a fome no Brasil. Parece simples, não? Pois não é. Para começar, raras empresas doam comida. Por incrível que pareça, elas preferem jogar o excedente no lixo. Não, não é por maldade: elas apenas querem evitar problemas legais, como arcar com a responsabilidade criminal no caso de a comida doada causar uma intoxicação ou a morte de alguém. “As pessoas e as empresas têm receio de doar alimentos. Temem que sua solidariedade se transforme num pesadelo”, diz o senador cearense Lúcio Alcântara, autor de um projeto de lei de 1997 que busca livrar de responsabilidade civil e criminal por dano ou morte aquele que doa alimentos, desde que se constate sua boa fé. Inspirado numa lei semelhante, aprovada nos Estados Unidos em 1996, o projeto está solenemente parado há um ano na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Não se sabe quando será votado.
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