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A indústria da engorda
Mas a crescente incidência de obesidade entre os seres humanos não é conseqüência apenas da quantidade de alimentos que temos à nossa disposição. É também fruto da qualidade deles. Isso porque a comida que abunda hoje não é a mesma que faltava na época de nossos ancestrais. Por exemplo, a carne de um animal selvagem, do tipo que nossa espécie consumia na Pré-História, tem apenas 3% ou 4% de gordura, enquanto um corte de primeira de carne de vaca pode conter 30% ou mais. Nós engordamos o gado pela forma como o alimentamos e por meio da vida sedentária que lhe proporcionamos. Outro exemplo é o trigo. A farinha de trigo que comemos hoje passa por tamanho grau de refinamento que é tolhida de suas fibras naturais. Isso faz com que se transforme em energia muito mais fácil e rapidamente por nossos corpos. A mudança radical da própria comida, portanto, é conseqüência direta das tecnologias que aplicamos para torná-la mais abundante. Os alimentos, hoje, são bens de consumo. Essa condição acelerou sua metamorfose. Somos bombardeados com mensagens sobre novos e deliciosos petiscos que não podemos deixar de experimentar (mensagens que, graças ao nosso passado de escassez, somos incapazes de ignorar). Isso ocorre porque as indústrias de alimentos têm, essencialmente, dois objetivos: fazer cada vez mais produtos e nos levar a consumir mais de cada um deles. Não são esses os objetivos de qualquer indústria? Nos mercados globalizados e competitivos de hoje, esse imperativo as incentiva a tomar decisões que pouco têm a ver com a saúde dos consumidores. E não há qualquer lei ou regulamentação governamental nesse sentido. Essas indústrias são incentivadas a se preocuparem apenas com a segurança alimentar, não com longevidade. Ou seja, elas se esforçam para evitar que seus produtos causem uma dor de barriga, mas não dão a mínima se o consumo constante causa diabetes. As empresas não fazem isso de propósito. Estão apenas respondendo aos incentivos que nós mesmos lhes damos. E o que temos dito a elas, condicionados que somos por um passado de escassez, é que queremos comida mais gostosa, mais barata, mais conveniente. E só. Os seres humanos, independentemente de sua cultura, têm preferência por alimentos doces, gordurosos ou salgados. E a indústria de alimentos, tentando nos dar o que queremos, tratou de desenvolver mais produtos com essas características. É assim porque compramos esses produtos. Compramos porque são gostosos, mesmo que não sejam saudáveis. E também porque, além de gostosos, são baratos. Acontece que, para torná-los baratos, as indústrias se valeram, em muitos casos, da troca de ingredientes naturais por manufaturados. Assim, por meio de estudos em laboratório, foi possível baratear o custo de produção de algumas comidas mantendo-as ao gosto dos consumidores. Basta ler a lista de ingredientes de qualquer alimento industrializado para perceber que comemos muita coisa que não existe na natureza. O problema é que a maneira como esses ingredientes são processados em nossos corpos e o impacto que podem causar em nossa saúde no longo prazo não são inteiramente conhecidos. A busca por comida barata e conveniente também é o que vem impulsionando o crescimento da indústria de fast food. Lanchonetes que servem sanduíches ou outros quitutes não se preocupam em oferecer refeições balanceadas e saudáveis. De novo, isso não é uma conseqüência da vontade delas, mas da nossa. Se queremos comer besteira, é isso que nos vão fornecer. E, para que tenhamos a impressão de que as refeições dessas redes são baratas, elas tratam de nos dar muita comida em troca de nosso dinheirinho. As porções cada vez maiores de batatas fritas, por exemplo, são fruto de uma simples equação econômica. Boa parte do custo de um restaurante vem do espaço que ele ocupa e dos empregados que ele tem. O custo dos ingredientes é marginal. Ou seja, a diferença entre o custo de uma batata média e o de uma batata gigante é tão pequena para o restaurante que faz todo sentido oferecer a maior porção possível, de forma a criar uma percepção de valor que faça o cliente voltar. Por isso as porções vêm crescendo e, como já vimos, quando temos uma porção maior à nossa frente, nossa tendência é comer mais. Em 1960, uma porção típica de batatas fritas no McDonald’s tinha 200 calorias. Hoje tem 610. Assim, as empresas que nos fornecem alimentos pouco saudáveis vêm conseguindo nos levar a consumir cada vez mais de seus produtos. E, se nós não nos preocupamos com o impacto em nossa saúde de comer coisas menos naturais em quantidades maiores, isso é problema nosso. Não vai ser a rede de fast food que vai nos alertar disso, pode ter certeza. |
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