Veículo:

Superinteressante

 

Ediçâo:

No. 197

Págs. 66-72

 

Data:

02/2004

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Text Box: Sexo, Grana e Comida
Cada um tem a sua prioridade

Mas então quem cuida de nós?

 

                 Enquanto a indústria se esforça para nos dar o que desejamos, outras instituições, como o governo, a comunidade científica e a mídia, tentam nos munir de informações sobre as conseqüências de nossos hábitos. E, por conta dos interesses particulares de cada uma dessas instituições, o resultado é uma grande confusão sobre que tipo de alimentação é saudável. “Muitas pessoas têm dificuldade para pôr orientações nutricionais em prática”, explica Marion Nestle, autora do livro Food Politics (“A Política da Comida” ainda sem tradução para o português). Para ela, as pessoas recebem informações novas e, muitas vezes, conflitantes sobre o impacto de  alimentos na saúde. Isso porque normalmente nos informamos por meio da mídia, e a mídia por meio de pesquisadores. Pesquisadores têm, segundo Marion, vários incentivos para realizar pesquisas sobre o impacto de um único nutriente em algum aspecto da saúde humana – embora eles saibam muito bem que é a dieta como um todo e o estilo de vida que determinam a saúde.

                 Pesquisas abrangentes que levem em conta vários aspectos são difíceis de realizar e de financiar e têm menos chances de sair na mídia. É que qualquer repórter que se preze valoriza o furo acima de tudo. Prefere reportagens sobre um alimento milagroso àquelas que dão a receita tradicional para a saúde: dieta balanceada e exercício moderado. Prefere publicar o regime de um mês que a Claudia Raia fez a prescrever uma dieta rica e equilibrada para toda a vida. É por isso que o noticiário de saúde é tão ilógico: toda semana algo que fazia mal passa a fazer bem, e vice-versa, deixando o público cada vez mais confuso. São os repórteres furando uns aos outros, cada um olhando apenas um aspecto e ignorando o todo.

                 A culpa, de novo, não é do jornalista. É de cada um de nós. O repórter também está nos dando o que demandamos. E preferimos nos iludir com receitas milagrosas e ingredientes mágicos a nos disciplinarmos para adotar o tipo de dieta que sabemos ser a ideal. No fundo, o que queremos é ter o prazer de comer sem conseqüências. E isso, desculpe, é impossível.

                 Mas, se queremos nos iludir, a indústria de alimentos, como já vimos, está pronta a atender nossos desejos. Prova disso é a enxurrada de comida diet e light que inundou as prateleiras de supermercados ao longo dos últimos dez anos. Foi a categoria de alimentos que mais cresceu durante esse período. Acontece que no mundo dos produtos diet e light tudo é relativo (veja no quadro) e os governos não ajudam a tornar as coisas mais transparentes. Segundo a Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária), órgão responsável pela regulamentação do setor alimentício no Brasil, um produto é light quando tem 25% menos calorias que sua versão original ou quando tem 25% menos de algum nutriente específico, como gordura, açúcar ou sal. Para ser diet, o produto precisa apresentar ausência total de algum nutriente. Ou seja, o simples fato de ser diet ou light não significa que um produto não engorde, apenas que engorda menos que sua versão original.

                 Às vezes, nem isso. Por exemplo, quando fabricantes reduzem o teor de algum nutriente para atingir a classificação, mas compensam a perda de sabor com o aumento de outros, que engordam também. Assim, até o governo acaba contribuindo para nos confundir ou permitir que nós mesmos nos enganemos.

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