1a Publicação

Veículo:

Site da Superinteressante

 

Data:

24/08/2001

O grande culpado

Coluna

                 Todo mundo fala nele, mas ninguém sabe exatamente o que é. É um ser quase mítico que vive em cada um de nós. Muitos de nós o consideramos carrasco de nossa existência. Não tem compaixão ou piedade, é completamente apático. Cedo ou tarde, o responsabilizamos por todos os pecados capitais que cometemos. Estou falando do notório metabolismo.

                 Aquilo que chamamos metabolismo é, na prática, o coletivo de todas as funções biológicas das quais nosso corpo se ocupa automaticamente, ou seja, sem nossa intervenção consciente. Desta forma, o metabolismo se transforma, no imaginário, em uma espécie de alter ego. Eu sou Dr. Jekyl e aquele lá é o meu metabolismo, Mr. Hyde.  Como não temos algum controle sobre suas atividades, fica fácil usá-lo como bode expiatório de nossas escorregadas.

                 Generalizando, as pessoas podem ter um metabolismo lento ou rápido. Em geral, atribuem-se aos gordos os metabolismos lentos e aos magros, os rápidos. Acho que existe um paradoxo aí. Permitam-me explicar. Se eu estou gordo é porque meu metabolismo processa a comida que como e a transforma em estoque de energia (gordura) com uma eficiência e velocidade maiores que minha capacidade de utilizar esta energia. Não é? Meu metabolismo é tão rápido que, mal termino de comer, e, vapt-vupt, está tudo transformado em energia e guardado para uma ocasião especial. Incansável que é, meu  metabolismo exige que eu coma mais para que ele possa continuar trabalhando.

                 Assim, venho aqui fazer um mea culpa em prol do meu metabolismo. Ele faz o trabalho dele direitinho. Eu é que sou preguiçoso e sedentário e, por isso, não consigo gastar toda a energia que ele me fornece. A verdade é que o grande culpado, o Mr. Hyde, desta história sou eu. Em minha defesa, posso dizer que trato meu metabolismo muito bem. Não sou capaz de gastar toda a energia que ele produz mas não o faço sofrer por causa de minhas limitações. Dou ao meu metabolismo toda a matéria prima que ele exige para ficar trabalhando feliz no ritmo dele. Não faço dietas e nem imponho restrições alimentares que poderiam deixá-lo deprimido ou insatisfeito.

                 Assim, gordinhos amigos, fiquem felizes por terem metabolismos tão bons e eficientes. Quando virem um daqueles magros que comem muito de tudo e não engordam, sintam pena e não inveja.  Aqueles filhos da p... têm metabolismos lentos e ineficientes.  Metabolismos que desperdiçam a preciosa energia dos alimentos e que trabalham como um operário mal remunerado e alcoolatra. Um dia pagarão preço pelo “benefício” de permanecerem magros. Quando precisarem que seus metabolismos sejam ágeis na defesa contra alguma doença, terão uma desagradável surpresa.  Bem feito!

 

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