1a Publicação

Veículo:

Site da Superinteressante

 

Data:

24/08/2001

Vai minha tristeza...

Coluna

                 Há uma certa tristeza em concluir uma refeição.  Quanto mais especial ou farta a comida, maior é a tristeza. Cientistas diriam que é apenas um processo metabólico. Explicariam que após as refeições, especialmente as grandes, o corpo dirige uma parcela maior de sua energia para o aparelho digestivo causando impotência nas demais partes.  Isto pode até ser verdade, mas é uma visão pouco romântica e que certamente não explica tudo.

                 O cansaço e a moleza no corpo podem ser explicadas pela ciência, mas eu fico sinceramente TRISTE quando termino minhas refeições e sei que não sou o único. Quantas vezes não vi um amigo ou parente terminar de comer, sentar ou deitar em algum lugar, abrir a calça e declarar, “Tô triste!” É tristeza que vem da cabeça, talvez do coração. Mas nada tem a ver com a disponibilidade de energia no corpo.  A ligeira depressão que toma conta dos apaixonados por comida quando a boca encerra sua participação deve ter outras causas.

                 Tendo racionalizado essa tristeza inúmeras vezes, posso apontar pelo menos duas causas concretas. A primeira é a consciência de que cada refeição significa uma a menos ao longo da vida. Uma refeição a mais no passado significa uma a menos no futuro. Essa noção, mesmo no subconsciente, nos entristece. Sim, faremos muitas outras refeições mas, aquela que passou, nunca mais. A segunda causa é a saudosa gratidão que todos devemos aos mártires da refeição.  Os seres que sacrificaram suas vidas pela nossa alimentação: os frangos, as vacas, os brócolis (sim, vegetarianos, as plantas também são seres vivos). É uma gratidão culpada e envergonhada que nos inspira e deprime ao mesmo tempo. 

                 Há várias maneiras de lidar com a depressão prandial. Muitos optam pela reclusão real ou virtual. Retiram-se da mesa para algum canto confortável onde podem curtir a fossa meditando ou filosofando.  Outros procuram vencer o cansaço físico e as atribulações com trabalhos mundanos como lavar a louça ou passar um café. Ainda outros, procuram burlar o ponto final da refeição. Prolongam-na tomando licores ou café, comendo queijos ou chocolate e fumando cigarros ou charutos.

                 Pessoalmente, prefiro uma outra tática. Ao terminar uma refeição, nada melhor para o espírito do que começar a planejar a próxima. Para começar, falar em comida com a barriga cheia é um luxo, uma massagem para a alma.  Essa solução também nos ajuda a focar nas muitas refeições que temos pela frente em vez de pensar no passado. Por fim, creio piamente que pensar na próxima refeição ajuda e acelera a digestão.  É como se o cérebro já avisasse ao aparelho digestivo: “Abre espaço aí que vem mais!”

 

 

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