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1a Publicação |
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“É especial...” |
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Coluna |
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“Fui a um restaurante que faz uma costeleta especial.” Pelo menos uma vez por semana, meu sogro descobre algo fora de série no mundo da gastronomia. Pode ser um prato em um restaurante, como a costeleta, ou algo comprado em uma loja como um doce, um corte de frios ou um tempero. Ele consegue encontrar exemplares notáveis, superiores e distintos até de pãozinho francês. Algumas pessoas acreditam que ele tem um dom e queriam ser como ele. Minha opinião sobre o talento do sogrão evoluiu bastante desde que o conheci. Minha primeira impressão foi de que tinha tirado a sorte grande! Além da bela filha que já me havia cedido, este simpático senhor iria fornecer um roteiro gastronômico exclusivo elaborado ao longo de décadas de tentativa e erro. Fantasiava os percursos que faríamos pela cidade, o estado e, eventualmente, o país, com nossas mulheres a tira colo, experimentando delícia após delícia. Imaginava a cumplicidade no apreço das boas refeições nos aproximando e unindo como pai e filho que torcem por um mesmo time de futebol. Quando provava algo novo e excepcional, corria para compartir a experiência na esperança de que ele me revelasse algum de seus bem guardados segredos. Com o tempo, a realidade esmagou minhas expectativas. Fui carregado para restaurantes, padarias, açougues e outros estabelecimentos à procura do “especial” só para sair frustrado de mais da metade deles. Estaria ele testando minha capacidade de separar o joio do trigo para saber se era digno de suas confidências? A maneira como minha sogra, minha mulher e meus cunhados ironizavam suas habilidades me levaram a crer que não. Eu havia sido enganado e, por algum tempo, guardei o rancor da decepção. Quando minha mulher informava que iríamos à casa dele para um jantar especial, eu respondia “especial porra nenhuma.” Quando ele me perguntava o que havia achado de sua comida, não fazia questão de esconder meu desdém se coubesse. Respondia: “Está bem razoável”. Aos poucos, fui me censurando pelo comportamento imaturo. Afinal, o culpado era eu. Acreditar que o sogro era uma espécie de mago da culinária foi infantilidade e ele não era mais culpado por isso do que qualquer pai cujo filho descobre que ele não é um super-herói. Hoje, voltei a acreditar que meu sogro tem um dom. Só não é o talento que eu imaginava, mas é uma habilidade especial e, cada vez mais, me convenço de que é muito melhor do que aquela que lhe atribuíra. Cheguei à conclusão de que ele é o Don Quixote da comida. Assim como o cavaleiro espanhol via castelos onde havia casebres, meu sogro prova iguarias onde há apenas o trivial. Pode-se argumentar que ele está apenas se iludindo, mas eu acho que ele está coberto de razão. Cada alimento que consumimos é especial. Seja animal ou planta, é um outro ser vivo que nos dá sustento, energia e prazer. Essa consideração que meu sogro tem por quase tudo que ele come é uma dádiva. Essa capacidade de reconhecer o extraordinário com maior facilidade e frequência do que pessoas mais criteriosas (ou chatas) do que ele é um dom. Gostaria de ser como ele. Aliás, acho que todos nós poderíamos nos beneficiar de seus ensinamentos. Que todos vocês façam uma ceia de Natal muito “especial” este ano e todos os anos daqui pra frente.
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