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1a Publicação |
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Abaixo o kilo! |
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Coluna |
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Sou totalmente a favor do capitalismo, mas as vezes ele produz aberrações. No Brasil, uma em particular me faz soar este alarme gastronômico. Em minha modesta opinião, o conceito de comida a peso, o popular “kilo”, é altamente pernicioso, tendendo a menosprezar aquela coisa essecial para nosso sustento e qualidade de vida: a comida. Esse conceito converte camarão em pescado, filé mingon em peito de frango e rúcula em repolho, transformando-os todos, no imaginário, em uma espécie de coletivo homogêneo ou, melhor dito, em ração. Pelo menos a sobremesa é paga a parte, o que resgata um pouco de nossa dignidade quando nos submetemos ao ritual humilhante de colocar nosso pratinho (feito com tanto carinho, coitadinho) no metal frio daquelas balanças digitais. Alguns estabelecimentos usam ainda a tática de servir a bebida na mesa para nos ajudar a recuperar nossa auto-estima, mas é pouco consolo. Afinal, não só tivemos que pesar nossos pratos, mas participamos daquela linha de produção disfarçada que é o circuito que começa na saladinha e termina na grelha. Isto é nada menos que a automatização da sagrada refeição. Não fosse o bastante endossar a supressão da identidade de nossos alimentos, o frequentador de tais estabelecimentos ainda se torna espectador da gradual decomposição dos mesmos. É uma metamorfose espetacular em que o alimento passa de sua forma original para torta, as vezes passando por “arroz de” e acabando, inevitávelmente, como mousse ou presunçosa terrine antes de chegar ao seu destino final, o lixo, já um pouco atrasado. Os danos psicológicos são incalculáveis. Nem mesmo os espertos se salvam disso. Acham que estão levando vantagem quando colocam no prato só as coisas mais caras que a casa oferece e pescam os camarões do bobó, mas acabam sofrendo mais com a desvalorização que ocorre na balança no final da fila. Sofrem mais com a indiferença do caixa ao conteúdo e aspecto geral do prato. A proliferação desSe conceito seria desastrosa. O preço de banana deixaria de ser o valor referencial que é, pois valeria o mesmo que outros tantos alimentos. Milhares de operadores de bolsa perderiam seus empregos pois não haveriam os mercados de soja, açucar e laranja, mas apenas a bolsa kilão. As gráficas perderiam o filão dos cardápios. Eventualmente, o impluso da ciência seria a otimização de produção por peso. O mundo, como o conhecemos, dexaria de existir. O contágio já começou. As inocentes lojas tudo-por-um-real fazem parte do esquema e os buffets e churrascarias com preço único estão nessa também. A culinária é uma arte, gente. O que você acharia de comprar quadros por metro quadrado, ver cinema por minuto, ou comprar livros por palavra? Se eu tiver que comprar roupa a metro, acabo falido (ou pelado)! Não posso permitir que as coisas cheguem a este ponto. Em protesto, não ofereço esta semana receita alguma por que a lista de ingredientes, obrigatoriamente, cita o kilo. Gostaria de lembrar que esta é a mesma medida perniciosa que aterroriza e tortura os milhares de seres humanos que sobem em balanças, principalmente mulheres. Abaixo o kilo!
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