1a Publicação

Veículo:

Site da Superinteressante

 

Data:

11/05/2001

In Vino Veritas

Coluna

                 Não sou um sommelier (ainda). Aprecio um bom vinho e tenho uma noção razoável de quais vinhos combinam com diferentes pratos, mas quando se trata de avaliar e comparar safras e châteaus, não tenho pretensões. O aprimoramento e estudo necessário para esta prática exigem muito tempo e dedicação. Espero possa um dia me dedicar a isso, mas, por enquanto, não está em minhas prioridades.

                 Tenho observado, no entanto, que há quem não se contenta na condição de leigo e desenvolve todo um ritual pseudo-sommelier. A maioria são pseudo-sommeliers oportunísticos. Os mais inocentes aproveitam deixas do tipo “bom este vinho, hein?” (que indicam a falta de familiaridade do interlocutor com a enologia) para declamar um breve monólogo sobre o assunto. Passeam pelo tipo de uva, a região do país em que cresce e alguns vinhos que se comparam ao que está sendo tomado. Tudo mentira deslavada. Mas existem, também, os pseudo-sommeliers obsessivos compulsivos. São os que se tornaram tão bons no papel que se dispõem até a discutir com verdadeiros sommeliers, convictos de que os leigos observadores da discussão não saberão distinguí-los, ainda que o verdadeiro sommelier o faça. Realmente têm a cara “amadeirada”.

                 Amadeirado, para os que não sabem, é um dos vários adjetivos que podem ser usados para descrever vinhos. A palavra se refere ao sabor que o tonel possa ter emprestado ao vinho. Vários outros adjetivos são utilizados por sommeliers e pseudo-sommeliers para descrever a bebida, tais como “ácido”, “doce”, “encorpado”, “seco”, e “fruité”.  Um segundo grupo de adjetivos são utilizados com menos frequência por sommeliers e mais pelos pseudos.  São as palavras mais descritivas porém menos precisas como “denso”, “tanino”, “aveludado” e outras nesta linha. Finalmente, há os adjetivos de personificação do vinho. Só os pseudos obsessivos com anos de experiência conseguem empregar estas palavras e manter a cara dura. Entre os melhores espécimes estão “audacioso”, “pretensioso”, “alegre”, “fugaz”,  “sofisticado” e “melancólico.”   Um exemplo prático (para os que estão tomando esta coluna como guia):   “Excelente vinho bem encorpado e tanino. É sofisticado, mas nada pretensioso.”  Pronto, você é quase um pseudo-sommelier.  Agora só falta aprender alguns rituais chave.

                 Todo sommelier e pseudo tem seu ritual na hora de provar um vinho pela primeira vez. Seja numa enoteca ou num restaurante, o primeiro passo é um movimento circular com a taça que faça o vinho subir pelos lados da mesma. Para verdadeiros enólogos, esta é uma forma de avaliar a viscosidade e textura do vinho. Se vir alguém fazendo isto mas  não olhando para a taça depois, saberá que está com um pseudo-sommelier amador. Em seguida, deve se levar o vinho ao olfato.  Não é fácil identificar farsantes por esta característica. Já vi enólogos que enfiam a nareba inteira dentro do copo neste momento e impostores que usam a mão para trazer o aroma do copo ao nariz. A lógica seria o contrário, não concordam? Finalmente, prova-se um pouco do vinho.  Há diversas modalidades:  gole, gole com barulho de peixinho, molhada dos lábios, molhada dos lábios com lambida e assim por diante. Durante todo o ritual e em geral, a taça de vinho deve ser segurada pela haste para que a mão não influencie a temperatura do vinho, mas isso, até os amadores sabem.

                 A maioria dos que pretendem praticar o pseudo-sommelierismo, ainda decoram as variedades de uva e as regiões e países de que originam. São fáceis de aprender e agregam muita credibilidade à performance, compondo uma relação custo-benefício bastante atraente. Bom, vou parando por aqui, pois esta coluna está parecendo um daqueles artigos contra drogas que descrevem o efeito que cada uma provoca, o preço, e onde encontrar. Deixo-lhes, esta semana, com uma lista de vinhos que são realmente muito bons e podem inspirar grandes elucubrações.

 

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