1a Publicação

Veículo:

Site da Superinteressante

 

Data:

19/05/2001

Cozinhando um clima

Coluna

                 O inverno chegou (pelo menos em São Paulo) e com ele uma licença para comer tudo o que há de mais pesado no vasto leque de opções da culinária. O corpo gasta mais energia mantendo sua temperatura no inverno e, portanto, devemos fornecer-lhe um combustível mais substancioso. É uma racionalização perfeita e, com ela, não só justifico minha total ignorância da existência de fatos científicos a respeito da questão (não sei, nem quero saber), como também mantenho a consciência tranquila. O que importa é leitão à pururuca, feijoada, estrogonofe, fondue, pato, foie gras, cordeiro, risoto, sopa de cebola e canjica entre outros tantos. Esses pratos que por questões de conforto, bem estar e até higiene evitamos no verão, esperam-nos de braços abertos no inverno. Ah, que saudade! 

                 Tenho a nítida sensação de que a comida é mais e melhor apreciada durante o inverno.  É delicioso sair do frio da rua e fazer uma refeição que nos esquenta até a alma, não é?  É por que comida passa a exercer a dupla função de abasteçer e esquentar o corpo. É curioso também reparar que os pratos de inverno são mais frequentemente preparados no forno. Assim, o cozinhar em si acolhe e torna-se fonte de calor. Como cozinheiro, percebo que os convidados frequentam mais a cozinha durante o inverno. No verão fico suando no fogão sozinho, mas no inverno é aquela badalação, todos querendo ficar mais perto do forno e, logo, de mim. Tive várias crises de auto-estima antes de reparar que havia um padrão de sasionalidade neste comportamento – achava que era comigo e cheguei até a comprar um desodorante mais power

                 A busca por aquecimento também influencia as bebidas que escolhemos para acompanhar nossos pratos, sem falar no bocado de mé que é acrescido à comida em si. Vinhos tintos, conhaques, e liquores mil saem dos cabinetes no inverno para serem despejados em pequenos ou grandes cálices dependendo da temperatura externa.  Há diversas racionalizações também para justificar o consumo elevado de alcool no inverno. A minha predileta é que a bebida é um anti-térmico medicinal. Quando uso esta racionalização, me vem à cabeça a bela imagem do São Bernardo da Cruz Vermelha com um mini-barril de conhaque no pescoço pronto a prestar primeiros socorros no frio das montanhas.

                 No inverno, comida e bebida se tornam estimulantes de nosso apetite sexual. O instinto reprodutivo, tanto do ser humano quanto da maioria dos animais, é muito mais forte na primavera e verão. No inverno, precisamos poupar nossas energias para nos aquecer. Isto é, sem contar com o efeito da comida e da bebida. Ambos nos aquecem e nos dão o conforto necessário para nos entusiasmarmos pelo sexo. Em outras palavras, fica muito mais fácil ficar peladão no frio depois de tomar uma garrafa de vinho tinto. Não estou dizendo que comida e bebida sejam uma condição sine qua non para o sexo no inverno, mas apenas que é bem melhor esquentar o motor do que tentar uma partida à frio. E nem considerei na argumentação o efeito desinibidor do álcool.  O álcool, roubando-nos um pouco de nosso bom senso, nos dá a liberdade para seguir nosso instinto primordial. Ou seja, fica muito mais fácil ficar peladão no frio depois de tomar uma garrafa de vinho tinto.

                 Eis que vemos novamente que a comida é essencial e não pode ser levianamente adulterada. Quando aceitamos concessões em relação à nosso alimento, estamos roubando a nós mesmos. Em homenagem à estação, ofereço-lhes o mais representativo dos pratos de inverno:  fondue. Aqui lhes forneço a receita do de queijo que é o mais complicado de se fazer, mas encorajo-lhes a fazerem também o de carne, o de chocolate e de tudo mais que se possa, com o perdão da expressão, fonder.

 

Leia outras colunas de Comida

 

 

Fondue de Queijo

 

Ingredientes

200 gramas de queijo gruyére

200 gramas de queijo emmenthal

2,5 xícaras de vinho branco seco

1 dente de alho descascado

1 colher (sopa) de maisena

pimenta-do-reino Branca

noz moscada

cubos de pão

 

Modo de Preparo

1. Ralar os queijos no ralo grosso e reservar.

2. Esfregar o dente de alho na parte interna da panela escolhida para se preparar o fondue. (recomenda-se a panela apropriada com espiriteira para levar o fondue fervendo à mesa).

3. Separe meia xícara do vinho e coloque o restante na panela, acrescente os queijos e leve ao fogão em fogo baixo mexendo a mistura sem parar até que os queijos estejam totalmente derretidos no vinho.

4. Misture a maisena com o vinho branco reservado e despeje na panela, continue mexendo por 1 minuto até engrossar, tempere com pimenta do reino e uma pitada de noz moscada,

5. Sirva acompanhado de cubos de pão amanhecido.

Aproveite o calor

Anúncios

Este site disponibiliza reportagens e matérias publicadas pelo autor em revistas, bem como textos inéditos, por tema

Text Box: Sexo, Grana e Comida
Cada um tem a sua prioridade