O dólar deixasse de ser a moeda mais forte do mundo?

                

                 Dentro das fronteiras de um país, é o governo local que determina a moeda em circulação. Fora do território, no entanto, não há uma moeda oficial internacional. Vale a que todos aceitam, ou seja, aquela pela qual há maior demanda. Nos primórdios do comércio internacional, o único instrumento aceito mundo afora era o ouro. Na esteira da Revolução Industrial do século 18, iniciada na Inglaterra, a moeda inglesa, a libra esterlina, passou a ser aceita internacionalmente.

                 Hoje, esse privilégio é do dólar. Além de ser a moeda corrente na maior economia do mundo, a dos Estados Unidos, é a mais usada para realizar transações entre países, emitir dívidas internacionais e armazenar reservas de governos. Por tudo isso, é a moeda mais forte do mundo. Essa hegemonia se consolidou no século 20, por um processo cíclico: quanto mais era usado, mais o dólar se fortalecia. E quanto mais forte se tornava, mais era usado.

                 Mas esse movimento também pode ser revertido. Aliás, uma reversão se tomou mais provável a partir da introdução do euro, moeda da União Européia, em 1999. Juntas, as economias dos países europeus são maiores que a dos Estados Unidos e é por isso que o euro tem potencial para desbancar o dólar. Para entender como isso aconteceria, digamos que você viaje para a China. Como é muito difícil comprar yuan (a moeda chinesa) por aqui, você compra dólares e, chegando lá, troca-os por yuans. Mas, se você e outros turistas passassem a fazer esse tipo de transação em ouro em vez de dólar, a procura pelas verdinhas cairia e, conseqüentemente, seu valor. É claro que os trocados dos turistas não vão quebrar os Estados Unidos. Mesmo que todos os exportadores brasileiros fizessem o mesmo, ou seja, cobrassem e recebessem em euros por suas mercadorias vendidas no exterior, o impacto seria pequeno.

                 Para abalar mesmo a moeda americana, estima-se que seria necessária a troca de pelo menos 4 trilhões de dólares por euros. A mudança talvez não chegue a esse volume, mas ela já começou. Hoje em dia, comerciantes internacionais já fazem transações em euros. Empresas e bancos já trabalham com papéis de dívida em euros. No Brasil, os bancos oferecem cada vez mais opções de investimentos atrelados à moeda européia. "O mais provável é uma transição gradual, mas há cenários possíveis de uma queda abrupta do dólar", afirma Jane d'Arista, diretora do Financial Markets Center, uma ONG dedicada ao estudo das atividades do Banco Central americano, órgão responsável pelo dólar.

                 O primeiro efeito da queda do valor do dólar seria sobre o comércio exterior americano. Os Estados Unidos passariam a importar menos e a exportar mais. Países como o México, que vendem muito ao seu vizinho do norte, sofreriam bastante. O Brasil seria menos afetado, porque exporta menos para lá e porque compensaria parte da perda com aumento de exportações à União Européia.

Veículo:

Superinteressante

 

Ediçâo:

No. 188

Pág. 36-37

 

Data:

05/2003

Text Box: Sexo, Grana e Comida
Cada um tem a sua prioridade

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