Somos Uma Família

O poder e a delícia da conexão por amor

 

                 Na sala de parto, minhas pernas tremiam com a iminência da paternidade e a angústia de ver minha mulher submetida a uma cesariana. Tudo mudou quando fitei os olhos da recém-nascida e percebi seu pavor e perplexidade em sair do ventre. Esqueci meus anseios. Confortar minha filha tornou-se minha única preocupação. A transformação foi tão radical e súbita que, até hoje, digo que baixou um espírito em mim. Recebi a pequena Luiza em meus braços, apoiado em pernas sólidas, e procurei tranqüilizá-la. Essa experiência define o que entendo por família: um grupo de pessoas que, por causa da forte conexão que sentem, ficam satisfeitas em esquecer um pouco de si mesmas em favor dos outros.

                 Claro que estou falando da família em seu melhor momento, da família cor-de-rosa. Ela também tem seu lado roxo – resultado de muitas pancadas verbais e emocionais. Eu já vivia sozinho há vários anos até que, em 1997, me mudei para o Rio de Janeiro e meus pais me convidaram para ficar no apartamento deles, que estava desocupado. Eles moravam em outro país. Concordei desde que pagasse um aluguel simbólico. Queria sentir que a casa era minha, que tinha algum direito lá. Que ingenuidade! Os problemas começaram quando eles vieram passar temporadas no “meu” apartamento. Achavam que prestavam um favor deixando que vivesse ali e se sentiam no direito de criticar meu estilo de vida. Eu achava que era eu quem estava fazendo o favor de cuidar do apartamento abandonado, pagando aluguel ainda por cima, e que tinham mais é que ficar bem quietinhos. Não preciso nem dizer que foram momentos família-só-é-bom-no-porta-retratos.

                 “A idéia amplamente divulgada de que a família, como instituição, está em crise é uma bobagem”, garante o carioca Sérgio Garbati, psicólogo e responsável pelo site Família & Relacionamento. “A família está em seu auge: a versão democrática atual é muito melhor que a autoritária de antigamente.” Para ele, o diálogo aberto de hoje, ainda que leve a conflitos, é preferível ao silêncio temeroso e moralista, que caracterizava o passado. Garbati acredita que a essência da família é a sensação de pertencer que confere, a cada um de seus membros, a segurança do apoio irrestrito. Ou seja, mesmo em meio às brigas naquele apartamento, nunca duvidei por um segundo sequer de que, se eu precisasse dos meus pais, eles  esqueceriam nossas diferenças e me receberiam em seus braços. Assim como fiz e farei sempre por Luiza.

                 A sensação de apoio incondicional, que nos dá liberdade para brigar feio com os parentes, é também fonte de enormes benefícios. Uma pesquisa recente do Instituto Nacional da Saúde Mental nos Estados Unidos comprovou que a probabilidade de incidência de distúrbios emocionais, sobretudo depressão, é duas vezes menor em pessoas que sentem ter o suporte dos familiares e/ou que acreditam ser importantes para eles. A certeza de que podemos contar com ajuda quando preciso proporciona segurança e confiança para encarar o dia-a-dia e os momentos difíceis. “Minha irmã morreu e, 20 dias depois, perdi minha mãe”, lembra a jornalista Eliza Kotscho, 49 anos, do interior de São Paulo. “Não conversei muito com meus irmãos, mas era um silêncio cúmplice. Ficava claro: eles estavam vivendo o mesmo que eu, e isso fez com que me sentisse compreendida e acompanhada na minha dor.”

                 Dar força à família também faz um enorme bem à cabeça. A consciência de que exercemos um papel importante na vida de alguém nos enche de orgulho, nos leva à autovalorização e a uma visão positiva de nós mesmos. Ana Carolina Nadalini, engenheira de 28 anos, recrutou a mãe para ajudá-la em seu trabalho de perícia. “Ela ficou muito sozinha a certa altura da vida. Como eu moro meio longe dela, também não podia visitá-la sempre.” Ao incorporá-la na rotina de trabalho, Carolina matou vários coelhos com uma cajadada só. “Além de contar com seu empenho e companhia, me sinto bem, porque sei que ela fica feliz quando lhe dou atenção.” Para usufruir de uma maior convivência em casa, algumas mulheres estão até abdicando de ambições profissionais. Em meados do ano passado, Karen Hughes, assessora do presidente George W. Bush, e Jane Swift, governadora do estado de Massachusetts, renunciaram aos respectivos cargos — e ao poder que os acompanhava — em prol da dedicação aos familiares.

Veículo:

Claudia

 

Ediçâo:

No. 499

Pág. 172 - 175

 

Data:

04/2003

Texto por partes

> Família Feliz

> Remédio Relacional

> Sobrenome de peso

 

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