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Mais é Melhor |
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Multiplicação de Cursos
A proliferação de cursos superiores e das instituições que os oferecem, sobretudo as particulares, é muito criticada em redutos acadêmicos tradicionais e na imprensa. Falam da banalização do ensino superior, criam expressões de efeito como “McDonald’s do ensino superior” e, com enfadonha freqüência, invocam o cansado argumento da “quantidade em detrimento da qualidade”, que não passa de uma grosseira generalização embasada numa visão estreita da evolução humana. Na verdade, porém, o fenômeno é saudável, tanto para a própria evolução do ensino superior quanto para a sociedade brasileira em geral. É fácil medir a qualidade dos cursos mais novos e apontar suas limitações e falhas comparando-os com os oferecidos por instituições de prestígio. Mas é mais fácil ainda perceber que essa é uma comparação descabida e que os novos cursos deveriam ser comparados à real alternativa a eles: nada. Os críticos da expansão do ensino superior qualificam a velocidade do crescimento na oferta de cursos como “assustadora”. As mudanças, especialmente as que implicam transformação da organização social, vêm freqüentemente acompanhadas pelo medo ou, mais precisamente, pelo receio do mal que podem causar. No século XIX, operários franceses que temiam perder o emprego por causa da automação jogavam seus sapatos de madeira – chamados sabot – nas máquinas para emperrá-las. Daí surgiu a palavra “sabotagem”. Duzentos anos depois, não se pode mais negar que a automação gerou mais benefícios do que males para a humanidade, impulsionando o crescimento das atividades no setor de serviços e permitindo que mais pessoas se dediquem a empreitadas intelectuais. Hoje, protesta-se contra a globalização, embora já se possa perceber que ela também fará bem coletivo aos habitantes do planeta. Toda mudança traz consigo problemas, e cabe evidenciá-los para que possam ser corrigidos. O que não podemos fazer é permitir que o medo desses males nos leve a sabotar as mudanças, pois não mudar é o mesmo que não evoluir, é perpetuar nossa condição. O aumento do número de vagas no ensino superior vem possibilitando a inúmeros jovens brasileiros dar continuidade à sua formação como cidadãos e profissionais. Impedir ou limitar a criação de novos cursos é o mesmo que lhes negar essa oportunidade, pois, para a maioria, a alternativa é não estudar mais. Será que alguém pode se dar o direito de roubar-lhes a possibilidade de se aprimorarem, de perseguirem uma formação superior só porque talvez não atinjam, nos quatro ou cinco anos que lhes concedemos, a plenitude de conhecimentos que se espera deles? Pode-se afirmar com certeza que a eventual inadequação desses formandos aos padrões estabelecidos para eles é fruto de incompetência das instituições, e não das deficiências de todo um sistema de educação que permite que estudantes saiam do ensino médio despreparados para o superior? Devem-se penalizar escolas que lutam para se aprimorar e desenvolver porque não são capazes de atrair os melhores alunos e precisam dedicar mais tempo do que as instituições de primeira linha à formação básica de seus alunos? A noção de que nada aquém do excelente pode ser oferecido quando se trata de ensino superior é, na melhor das hipóteses, paternalismo equivocado e, na pior, protecionismo míope. Devemos celebrar o aumento de vagas, de cursos e de instituições que oferecem educação, sobretudo num país como o Brasil, cujo desenvolvimento é atravancado justamente por seu enorme déficit educacional. Mais é sempre melhor, nesse caso. Não importa se a educação está aquém do desejável ou mesmo que seja oferecida visando ao lucro. O importante é que quem quer aprender mais tenha a oportunidade de fazê-lo. A qualidade pode vir depois.
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Artigo |
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1a Publicação |