Bob Jeff, herói brasileiro

A incrível história do acusado de corrupção que virou o salvador nacional

 

                 Mestre-de-cerimônias do escândalo político mais suculento da década, Roberto Jefferson é um herói improvável. Admitidamente falsário, Bob Jeff, como foi apelidado por seus fãs, conquista admiradores a cada depoimento. A comunidade “Roberto Jefferson é o cara!!” no Orkut, a maior entre as 473 que levam seu nome, tem 7,5 mil membros. Já a “Eu odeio Roberto Jefferson” aparece num distante nono lugar, contando com menos da metade dos 1,1 mil membros da “Roberto Jefferson é honesto!”, a sétima colocada. Entre os admiradores, o ator Thiago Lacerda declarou recentemente: “Roberto Jefferson é meu herói atual”.

                 Herói? Encurralado, mostrou as presas, mas não para se defender. Motivado por vingança ou por malícia, espalhou a merda com a eficiência de um ventilador industrial, abalou as estruturas da República e orgulhou-se: “Eu sou que nem índio, caio de faca no dente e machadinha na mão”, disse. Esse é o legítimo herói brasileiro! Herói porque revelou uma rede de corrupção que afronta a sociedade. Herói brasileiro porque o fez na cara dura, tirando sarro e, sobretudo, olhando para o próprio umbigo.

                 A história brasileira está repleta de homens que, agindo em causa própria, esbarraram numa nobre causa. José de Anchieta, por exemplo, que ainda por cima era padre, tornou-se herói da educação e defensor dos índios ao catequizá-los e lutar contra sua escravização (a de negros, tudo bem por ele), mas sustentava-se pela mão-de-obra de seus protegidos, levando-os a colaborar pacificamente por temor a Deus (diga lá se “colaboração pacífica” não é eufemismo do tipo “dinheiro não contabilizado”). Como ele, d. Pedro I, herói da independência, só queria mesmo era um trono; Getúlio Vargas, o “pai dos pobres”, tinha um projeto para o país que se resumia a aumentar seu poder pessoal; e mesmo Tancredo, o herói das diretas, nunca foi dos maiores apoiadores da causa e ainda fez conchavo com militares para se tornar presidente.

                 Por que, então, admiramos esses homens? Seria, como afirmou Mário de Andrade, criador do anti-herói Macunaíma, por que “o brasileiro não tem caráter”? Ou somos apenas realistas e, enxergando falhas no caráter de todo ser humano, nos admiramos quando elas levam homens comuns, menos nobres do que nós, à realização de grandes feitos? O excelentíssimo senhor deputado Roberto Jefferson, malandro e amoral que é, só queria ferrar quem lhe ferrou. Mas o fato é que, fora o show, está ajudando o Brasil a se dar ao respeito e, por isso, virou Bob Jeff, herói brasileiro.

Veículo:

Playboy

 

Ediçâo:

No. 362

Pág. 54 - 55

 

Data:

08/2005

Text Box: Sexo, Grana e Comida
Cada um tem a sua prioridade

Artigo

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