Guerra dos sexos

Corridas entre homens e mulheres, times de futebol mistos, rankings unificados. Alguns cientistas acreditam que, biologicamente, não há razão para a distinção de gênero atual no esporte. A divisão, dizem, apóia-se mais no preconceito que na ciência

 

                 Em 20 de setembro de 1973, mais de 30 mil espectadores lotaram o estádio Astrodome, em Houston, Estados Unidos, formando o maior público de uma partida de tênis em toda a história. Outros 50 milhões de pessoas acompanharam pela televisão. Motivo: a tenista Billie Jean King, 29 anos, enfrentaria finalmente o tenista Bobby Riggs, 55, que havia meses afirmava que uma mulher jamais venceria um homem. A mídia batizara a partida de “Guerra dos Sexos” e, com o movimento dos direitos femininos no auge, ela se tornou um dos acontecimentos do ano. Ambos campeões de Wimbledon, entre outros torneios, eles aproveitaram a fanfarra. Ele entrou no estádio numa carruagem puxada por mulheres e ela carregada por homens vestidos de mini-togas.

                 Apesar do sensacionalismo, a partida levantou uma série de questões pertinentes. A separação sistemática de homens e mulheres no esporte é justificada? O gênero do competidor é um critério razoável para selecionar atletas para competição? Os homens são atletas superiores em todas as modalidades? Nos 30 anos que se passaram desde então, nenhuma dessas perguntas foi respondida de maneira adequada. E não faltaram acontecimentos para esquentar ainda mais o debate.

                 Em 1986, a cestinha Nancy Lieberman se tornou a primeira mulher a jogar basquete por um time da liga profissional masculina americana. Em 1993, a jóquei Julie Krone foi a primeira mulher a vencer uma corrida de cavalo do circuito Triple Crown, nome dado às três corridas de cavalos que dão os maiores prêmios nos Estados Unidos. E, mais recentemente, a sueca Annika Sorenstäm reacendeu o debate ao ser convidada para disputar o Bank of America Colonial, um prestigioso torneio de golfe masculino realizado nos Estados Unidos.

                 É curioso que iniciativas como essas causem espanto, já que a competição direta entre os sexos já existe há muito tempo em outros esportes. No hipismo, mulheres e homens concorrem juntos desde 1952. No automobilismo – mais especificamente na Fórmula Indy, mas também na F-1 – a presença das mulheres tem sido uma constante desde os anos 70, quando Janet Guthrie tomou o volante. E, nesses esportes, o desempenho delas tem sido cada vez melhor. Em 2000, a jovem Sarah Fisher se tornou a primeira mulher a subir ao pódio, por chegar em terceiro lugar numa corrida Indy. No ano seguinte, ela repetiu o feito, dessa vez chegando em segundo. No Brasil, a mineira Mariana Balbi está em décimo lugar no campeonato brasileiro de motocross, é a atual campeã mineira e conquistou mais oito títulos sobre duas rodas. Alguns podem argumentar que, nesses esportes, o cavalo, o carro ou a moto equilibram o jogo. Talvez.

                 Em 1926, a americana Gertrude Ederle atravessou o Canal da Mancha, entre a França e a Inglaterra, a nado. Além de ser a primeira mulher a completar a travessia, ela o fez em 14 horas e 39 minutos, baixando o recorde masculino da época em mais de duas horas. Em 2002, a francesa Audrey Mestre bateu o recorde mundial de mergulho livre – esporte popularizado pelo filme Imensidão Azul – ao descer a uma profundidade de 170 metros debaixo d’água sem aparelhos para respiração artificial. Tragicamente, dias depois ela morreu tentando superar seu próprio recorde.

Veículo:

Superinteressante

 

Ediçâo:

No. 191

Pág. 82 - 87

 

Data:

08/2003

Texto por partes

Text Box: Sexo, Grana e Comida
Cada um tem a sua prioridade

1a Publicação

Reportagem

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