Guerra dos sexos

As bases duvidosas da segregação

                

                 Mas há quem diga que mesmo esses critérios que permanecem de pé sustentando a separação não têm raiz biológica, mas social. Jorge Knijnik, professor da Escola de Educação Física da USP e autor do livro A Mulher Brasileira e o Esporte, afirma que “mensurar as diferenças físicas ou biológicas entre homens e mulheres teria relevância apenas se conseguíssemos apagar os efeitos de aspectos históricos e sociais envolvidos no desenvolvimento da mulher no esporte”. Para o especialista, a comparação de atuais atletas masculinos e femininos tem o viés das diferentes condições que cada um enfrentou para chegar aonde está. Por exemplo, as próprias atletas podem limitar seu condicionamento físico ou, até mesmo, sua participação no esporte para não serem consideradas muito masculinas, seja pelo envolvimento com o esporte ou porque o desenvolvimento muscular exigido as tornaria menos feminina aos olhos da sociedade.

                 Há também um forte viés financeiro, ou seja, atletas masculinos seriam mais bem preparados por que têm patrocínios melhores, o que decorre do fato de que a mídia prioriza o esporte masculino – estudos no Brasil e nos Estados Unidos comprovam que mais de 75% da cobertura do esporte é dedicada aos homens. A própria separação entre os sexos nas competições pode prejudicar o rendimento feminino. Ou seja, a falta de competitividade levaria à acomodação da atleta – se ela já é a campeã, para que fazer mais esforço? A maratonista britânica Paula Radcliffe provou isso quando pediu autorização para que corredores masculinos a acompanhassem na maratona de Londres de 2002. Com essa referência, ela baixou o recorde mundial feminino em mais de um minuto.

                 “No esporte, a diferença biológica é muito relevante, mas ela existe dentro de cada sexo e não apenas entre eles. Quer dizer, pode haver mais diferenças físicas entre dois homens ou duas mulheres do que entre um homem e uma mulher”, diz Knijnik. Nesse sentido, o critério sexo não seria o mais relevante para algumas modalidades. Seria mais lógico criar categorias que separassem os competidores por idade, altura, peso ou alguma outra caraterística mensurável. Os pugilistas, por exemplo, são separados por categoria de peso além de por sexo. Diversas modalidades, como o hipismo e o futebol, contam com categorias de faixa etária. Isso demonstra outra conseqüência negativa da segregação sexual nos esportes: ela pode prejudicar atletas masculinos que têm habilidade mas têm também “deficiências” que não são capazes de controlar. Por exemplo, um hábil jogador de basquete ou vôlei não terá esperanças de se tornar um atleta profissional se tiver menos de 1,80 metro de altura.

                 Considerações como essas nos levam a questionar se a separação entre sexos é justificada em qualquer esporte. Em outras palavras, se a maratona ou a corrida de 100 metros fosse segmentada por outro critério, como comprimento da perna, por exemplo, o desempenho masculino seria superior ao feminino? Se a competição fosse nivelada por aspectos físicos haveria justificativa para separar os sexos, mesmo em esportes com contato físico? Ou será que a sociedade simplesmente não está preparada para ver uma mulher sofrer uma falta feia de um homem no futebol ou, ainda, para vê-la derrubar um homem no judô?

                 Para ter uma resposta definitiva sobre o desempenho comparativo dos homens e das mulheres no esporte, teríamos que comparar atletas da mesma altura, peso e idade que puderam desenvolver seus talentos em condições similares – com apoio financeiro e psicológico semelhante. Até hoje, nenhum estudo desse tipo foi realizado e, dada a dificuldade em conseguir equilibrar todos esses fatores, pode demorar para que o seja. Enquanto isso não acontecer ou até que haja uma mudança radical na organização do esporte mundial, não saberemos quem é o melhor em determinada modalidade esportiva. Por enquanto, o que podemos afirmar com certeza é que, naquela quinta-feira de 1973, Billie Jean King derrotou Bobby Riggs por três sets a zero, com parciais de 6-4, 6-3 e 6-3. Depois da partida, Riggs declarou: “Ela era boa demais, rápida demais”.

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Cada um tem a sua prioridade

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Reportagem

Veículo:

Superinteressante

 

Ediçâo:

No. 191

Pág. 82 - 87

 

Data:

08/2003

Texto por partes

1a Publicação