“Não me lembro quando começou. A Renata, minha mulher, passou a acrescentar a palavra ‘rápido’ às ordens que me dava. Está certo que não sou o sujeito mais ágil do mundo — paro para olhar a paisagem —, mas não demorou para que aquilo me irritasse. Afinal, receber ordem já é desagradável; qualificada, então, fica pior. Um dia, ela mandou que eu fizesse qualquer coisa ‘rápido’ e não agüentei. Passei sermão, disse grosserias e ordenei que nunca mais usasse aquela palavra comigo. Esperava uma reação à altura e já me preparava para a briga, mas, para minha surpresa, ela não ocorreu. Em vez disso, recebi risos envergonhados e um meigo ‘Desculpa, tá?’

                 Demorei para entender o que havia acontecido. Teria a Renata percebido que estava errada? Não, seria simples demais — eu já perdera outras batalhas em que estava coberto de razão. Vieram à minha cabeça outras hipóteses. Descartei todas por não encaixarem com os fatos, exceto uma. Essa, sim, não só explicava o histórico com a minha mulher como também jogava uma luz sobre relacionamentos anteriores. É o seguinte: as mulheres sonham com homens com múltipla personalidade.

                 Ao reagir com veemência à ordem petulante da minha mulher, eu havia demonstrado poder, aquela qualidade fugaz que toda mulher aprecia e procura. É por isso que vocês gostam de astros de cinema, do esporte, bad boys, chefes e endinheirados em geral. Todos têm alguma medida de poder e vocês, por herança genética ou impulso biológico, não resistem a isso. No entanto, é evidente que não suportam por muito tempo as outras características comuns aos homens poderosos, como arrogância, indiferença e infidelidade. Por outro lado, também não toleram um pamonha que jamais contesta o que dizem e que nunca se rebela contra suas exigências. Ou seja, o homem ideal da maioria das mulheres é paradoxal: um cara poderoso, ousado, viril, sensível, romântico e fiel.

                 Até aí, tudo bem. A maioria dos homens também quer uma mulher paradoxal. Aquela que podemos levar da casa da nossa mãe direto para um motel. A grande diferença é que nós queremos um paradoxo constante e vocês um mutante. Um dia, vocês querem alguém que leva flores, abre as portas e puxa as cadeiras, mas que não é avesso a um sexo selvagem com direito a palmadas e baixarias. No dia seguinte, querem um cara que as ignora e maltrata na boate e, mais tarde, passa horas acariciando e beijando seu corpo com delicadeza antes de proporcionar-lhes um tenro e vagaroso amor. Nós queremos sempre uma lady em público e uma vagabunda entre quatro paredes. Por isso, o homem ideal de vocês é um louco. Ele precisa mudar de personalidade de forma quase imprevisível ou, de preferência, conforme a vontade de vocês naquele momento particular.

                 Não é uma crítica, é a constatação de um fato. Vocês têm todo o direito de querer o que quiserem, quando quiserem. Porém, como não somos assim, não esperem que sejamos capazes de decifrar as expectativas de cada instante e corresponder a elas. Não se surpreendam, também, se as acusarmos de não saberem o que querem, de serem loucas e outras variações sobre este tema. Mesmo os homens que chegarem à conclusão que cheguei terão dificuldade em aplicar a teoria (lei?) da múltipla personalidade na prática. É difícil detectar o momento certo e oportuno para agir de uma ou de outra forma. Outro dia, minha mulher me mandou fazer a cama do nosso quarto e eu falei para ela não me encher o saco. Ela não gostou. Como eu podia saber? A qualquer momento, tenho 50% de chance de agir da forma que a Renata espera ou, mais precisamente, que deseja em seu íntimo. Talvez com o tempo minha capacidade de interpretação de seus desejos melhore.

                 Talvez não. Mas esse é o preço que ela terá de pagar. Agora que sei que quer Dr. Jekyl e Sr. Hyde, é isso que procurarei dar. Eu e eu também.”

Veículo:

Nova

 

Ediçâo:

No. 358

Pág. 36

 

Data:

07/2003

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"Para as mulheres, o homem ideal tem múltipla personalidade"