|
Ela praticamente me estuprou. Tomou posse do meu corpo com a paciente voracidade de uma aranha que envolve sua presa numa teia de seda luxuosa antes de sugar-lhe os fluidos. Não posso negar que gostei, mas isso não altera os fatos. “Posso dormir agora?” Era exatamente o que eu estava pensando, mas foi ela quem verbalizou. Seu tom era repreensivo como o da vítima de uma grande injustiça. Dominado, física e psicologicamente, não soube como reagir. “Pode”, foi minha débil resposta e, por um instante, cheguei a cogitar um pedido de desculpas. Minutos depois, recuperado e subitamente revoltoso, arrisquei: “Foi você que começou”. “Não interessa!” Ela foi cruel e brilhante. Prosseguiu esclarecendo que o sexo só ocorre, oficialmente, a partir da penetração. Logo, como proprietário do órgão que realiza a penetração, a “culpa” pelo ato sexual era e seria sempre minha. Ou seja, o pênis é um delito inevitável. Interrompendo meus protestos, ela aplicou seu coup de grâce: “Está aí o Bill Clinton que não me deixa mentir”. Após alguns segundos de silêncio, comecei a rir. Era o riso histérico e incontrolável de quem antevê sua própria perdição. Deliberadamente ou não, o tortuoso raciocínio dela denunciou o paradoxo a que os homens modernos estão sujeitos. As mulheres, cada vez mais poderosas, estão aí a conquistar os empregos, usurpar a chefia das famílias e rapinar o exórdio dos romances. No entanto, por prescrição anatômica e herança histórica, permanecemos no papel de sexo agressivo. Fragilizados, nós continuamos abrindo portas e dando-lhes a preferência em qualquer situação. Ao mesmo tempo, estamos cada vez mais prendados — cozinhando, limpando e assumindo aos poucos todos os papéis que impusemos a elas no passado. Mas não adianta nada. O pênis, enquanto instituição, tem uma dívida tão grande a juros tão altos que jamais conseguiremos pagá-la. O que fazer? Não há nada a fazer. Elas já venceram. Nós é que não sabíamos. Usaram nossas armas contra nós numa armação genial. Quem irá se opor ao triunfo das mocinhas sobre os vilões? Ninguém — nem nós mesmos. Hoje, até os próprios homens acreditam que merecem essa doce derrota. Eu já me resignei. E estou doidinho para saber qual será o meu castigo! |
|
Este site disponibiliza reportagens e matérias publicadas pelo autor em revistas, bem como textos inéditos, por tema |



|
A culpa é nossa? |
|
|
|
|
|
|
|
|