Era sexta-feira. Os caminhos da cidade à praia estavam entupidos. Os carros avançavam devagar como grãos de areia numa ampulheta. Ela e eu estávamos em lugares diferentes da cidade e eu, mais perto de nosso destino final. “Passe aqui para me encontrar”, sugeri. Ela reagiu com um indignado “ah, não”. Nem me lembro de todas as justificativas dela. Eram muitas e poucas eram boas. Minha única justificativa, por outro lado, era a mais relevante naquela situação. Se eu fosse buscá-la, ficaria uma hora a mais no trânsito além de gastar gasolina à toa.

                 Tentei expor meus argumentos. Não estava entendendo a relutância em aceitá-los. Afinal, ela estava acostumada a dirigir. Ia e voltava do trabalho enfrentando aquele trânsito diário. Quando saíamos para jantar ou ir ao cinema, era comum nos encontrarmos no local. Ainda assim, ela ficava mais irritada à medida que tentava explicar a lógica perfeita dos cálculos. “Você não está entendendo”, eu argumentava, “se eu te pegar, nós vamos gastar uma hora e dez reais a mais”. O meu uso tático do pronome “nós” não adiantou. Ela ameaçou desistir. Capitulei.

                 Como fui ingênuo! Aquilo me parecia uma simples questão de logística. Agora entendo que não era nada disso. O cálculo que fizera, levando em conta tempo e dispêndio de combustível, era falho. Deixava de considerar variáveis importantíssimas como meu cavalheirismo, meu amor por ela e minha vontade de consumá-lo naquele final de semana.                  Levando em conta essas outras variáveis (que, diga-se de passagem, levariam qualquer transportadora à falência em  um mês) cheguei à conclusão de que deveria buscá-la. A logística do amor é assim: se o homem pode servir de motorista sem comprometer a conveniência da mulher, é o que deve fazer. Ou seja, só estamos dispensados do serviço quando ela prefere dirigir. Como, sabidamente, não temos a menor possibilidade ou talento para adivinhação das vontades delas, o melhor a fazer é seguir instruções.

                 Sim, isso nos causa aborrecimentos e irritação. É muito pior que a leve indignação que sentimos com relação a outras tantas atribuições de nosso sexo que nos reduzem à condição de servo como abrir portas, puxar cadeiras, e assim por diante. Mas, pelo menos, nesse caso temos  tempo em trânsito para xingá-las até a raiva passar.

Veículo:

Playboy

 

Ediçâo:

No. 333

Pág. 19

 

Data:

04/2003

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Cada um tem a sua prioridade
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Logística do amor